A história do Dia Mundial da Saúde Mental e o que a data quer dizer em 2026
Todo 10 de outubro, o calendário da saúde para por um dia para falar de saúde mental. A data parece ter existido desde sempre, mas é mais nova do que muita gente imagina e tem uma história com começo, personagens e mudanças de rumo. Vale contar. Um aviso de honestidade: as fontes que consultamos não explicam por que o dia 10 foi o escolhido, e não vamos inventar uma explicação.
Uma federação e uma transmissão ao vivo
A história começa antes da data. Em 1948 nasceu a Federação Mundial para a Saúde Mental (WFMH), sob os auspícios da ONU e da OMS. Em 1992, a federação promoveu a primeira edição do Dia Mundial da Saúde Mental. Segundo a história contada pelo site britânico Essential 6, a estreia foi uma transmissão ao vivo a partir de Tallahassee, na Flórida, que ligou participantes de cinco continentes.
Nas primeiras edições não havia tema. O primeiro veio em 1994, sob a liderança do então secretário-geral da federação, Eugene Brody: “Melhorar a qualidade dos serviços de saúde mental no mundo”. Desde então, cada ano ganhou o seu lema.
O que os lemas contam
Dá para ler a história recente da saúde mental pelos temas que a OMS lista no site da campanha. Em 2015, dignidade. Em 2016, primeiros socorros psicológicos. Em 2017, saúde mental no local de trabalho. Em 2019, prevenção do suicídio, assunto que também ocupou nosso post sobre o Setembro Amarelo. Em 2023, saúde mental como direito humano universal. Em 2024, o trabalho voltou ao centro. Em 2025, as emergências humanitárias.
Repare: o trabalho foi tema em duas das dez últimas edições (2017 e 2024). O prefácio do livro do Observatório, assinado por Frida Marina Fischer, reproduz a mensagem da OMS de 2024, a de que ambientes de trabalho seguros e saudáveis podem funcionar como fator de proteção para a saúde mental.
O que a data quer dizer
Segundo a OMS, o objetivo geral do dia é ampliar a conscientização sobre saúde mental no mundo e mobilizar esforços em favor dela. Há um sentido mais fundo, que o capítulo de Tânia Maria de Araújo no livro do Observatório ajuda a enxergar. Para a autora, saúde mental não é só um atributo individual, é um modo de existir. Uma boa definição, diz ela, está na capacidade de se levantar das rasteiras que a vida dá. A essência não é nunca cair, é conseguir se levantar, e isso depende de os coletivos a que pertencemos nos amparar ou não.
Na nossa leitura, uma data mundial serve justamente para lembrar desse coletivo.
O 18 de maio brasileiro
O Brasil tem a sua própria data. O Dia Nacional da Luta Antimanicomial, 18 de maio, foi instaurado em 1987, em Bauru (SP), durante o Congresso de Trabalhadores de Serviços de Saúde Mental, com o lema “Por uma sociedade sem manicômios”. O movimento, conta o Brasil de Fato, reuniu trabalhadores da saúde mental, pessoas que já foram internadas, familiares e sindicalistas. Em 2001 veio a Lei da Reforma Psiquiátrica. Hoje, segundo o livro do Observatório, a Rede de Atenção Psicossocial tem 2.795 Centros de Atenção Psicossocial (dado de abril de 2022).
2026: ouvir quem viveu
Chegamos ao tema deste ano, anunciado pela WFMH em 11 de agosto: Lived experiences heard: real voices, real change, ou “Experiências vividas, ouvidas: vozes reais, mudança real”. A mensagem da federação diz que o avanço real só acontece em colaboração próxima com pessoas que têm experiência vivida, e liga o lema ao trabalho da OMS sobre desinstitucionalização. Pede, ainda, plataformas genuínas para que essas pessoas sejam ouvidas.
Quem leu a seção anterior percebe o encontro: o movimento brasileiro reuniu, desde a origem, quem trabalha com saúde mental e quem viveu a internação. Na nossa leitura, a ideia que a campanha global coloca no centro agora já tinha endereço aqui.
E no trabalho? O livro do Observatório traz um dado que ajuda a medir a distância entre o ideal e a prática. Em um inquérito com 34 Cerest, a escuta com grupos de trabalhadores foi citada em apenas 9 respostas, contra 21 da escuta individual e 25 da observação direta do processo de trabalho. A oficina que deu origem ao livro pede, entre suas proposições, fortalecer espaços de escuta com participação dos trabalhadores.
Então fica a pergunta para o seu serviço, a sua empresa, o seu sindicato: existe um espaço onde o trabalhador é ouvido de verdade?
Referências
CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Luta Antimanicomial é destaque em solenidade na Câmara. 22 maio 2019. Disponível em: site.cfp.org.br/?p=66944. Acesso em: 10 out. 2026. [Fonte da instauração do 18 de maio em 1987, em Bauru (SP), no Congresso de Trabalhadores de Serviços de Saúde Mental, e do lema “Por uma sociedade sem manicômios”.]
COURY, Rafaella. 18 de maio, Dia da Luta Antimanicomial: a batalha que não acabou. Brasil de Fato, 18 maio 2025. Disponível em: brasildefato.com.br/2025/05/18/18-de-maio-dia-da-luta-antimanicomial-a-batalha-que-nao-acabou/. Acesso em: 10 out. 2026. [Fonte da composição do movimento (trabalhadores, pessoas que já foram internadas, familiares e sindicalistas) e da Lei da Reforma Psiquiátrica de 2001.]
ESSENTIAL 6. The history of World Mental Health Day: October 10th. Disponível em: essential6.co.uk/the-history-of-world-mental-health-day-october-10th/. Acesso em: 10 out. 2026. [Fonte da primeira edição em 1992, da transmissão ao vivo a partir de Tallahassee e do primeiro tema em 1994, sob a liderança de Eugene Brody. Fonte secundária e única para o episódio de Tallahassee.]
MIRANDA, Fernanda Moura D’Almeida; ARAÚJO, Tânia Maria de; OLIVEIRA, Simone Santos (org.). Observatório Saúde Mental e Trabalho: reunindo esforços por direitos e bem-viver. Curitiba: CRV, 2025. [Fontes, por trecho: primeira oficina do Observatório, em Curitiba (UFPR), de 6 a 8 de dezembro de 2023 (p. 11 e 14); mensagem da OMS de 2024 sobre ambientes de trabalho como fator de proteção, no prefácio de Frida Marina Fischer (p. 10); concepção de saúde mental como modo de existir, ideia de se levantar das rasteiras da vida (p. 141-142) e 2.795 CAPS em abril de 2022 (p. 155), no capítulo 10, de Tânia Maria de Araújo; inquérito com 34 Cerest (p. 125) e números sobre os métodos de vigilância (p. 130), no capítulo 9, de Adriana Skamvetsakis; proposição sobre espaços de escuta com participação dos trabalhadores, item 10 do eixo “Vigilância de ambientes e processos de trabalho e atenção à saúde do trabalhador” (p. 180-181), nas Proposições por grupos temáticos da Oficina.]
WIKIPEDIA. World Mental Health Day. Disponível em: en.wikipedia.org/wiki/World_Mental_Health_Day. Acesso em: 10 out. 2026. [Fonte secundária que confirma a primeira edição em 1992, a ausência de tema até 1994 e o tema de 1994.]
WORLD FEDERATION FOR MENTAL HEALTH. Páginas institucionais: resumo de notícias; World Mental Health Day 2026, announcing this year’s theme; Message from the WFMH. Disponível em: wfmh.global/news/summary; wfmh.global/news/2026.26-08-11_world-mental-health-day-2026; wmhdofficial.com/messages-from-authorities/message-from-the-wfmh/. Acesso em: 10 out. 2026. [Fonte da fundação da WFMH em 1948 sob os auspícios da ONU e da OMS; do lema de 2026 e da data do anúncio (11 ago. 2026); da colaboração com pessoas com experiência vivida, da ligação com a desinstitucionalização e do pedido de plataformas genuínas.]
WORLD HEALTH ORGANIZATION. World Mental Health Day. Disponível em: who.int/campaigns/world-mental-health-day. Acesso em: 10 out. 2026. [Fonte do objetivo geral da data e da lista de temas de 2015 a 2026 (dignidade, primeiros socorros psicológicos, trabalho em 2017 e 2024, prevenção do suicídio, direito humano universal, emergências humanitárias e o lema de 2026).]
