
A deterioração da saúde mental pode afetar a cognição, o estado emocional, a vida social e relacional, a saúde física, a identidade e o bem-estar relacionado ao trabalho. Nesse contexto, de acordo com Vieira et al. (2023), estima-se que cerca de 1 milhão de pessoas morram por suicídio a cada ano no mundo e que, para cada morte por suicídio, ocorram aproximadamente 20 tentativas. No contexto do trabalho, o sofrimento psíquico pode sinalizar a necessidade de atenção tanto às condições individuais quanto às condições de organização do trabalho. Cuidar da saúde mental no trabalho exige olhar para o trabalhador e para o ambiente em que ele está inserido.
Entre os principais fatores psicossociais relacionados ao ambiente de trabalho associados ao suicídio, destacam-se a elevada demanda laboral, a falta de autonomia, o baixo suporte emocional, as falhas na comunicação, os conflitos interprofissionais, as desigualdades de gênero, os transtornos mentais pré-existentes e o estresse ocupacional. Também se destacam situações de assédio moral e sexual, a falta de variedade ou a repetitividade das atividades, o trabalho fragmentado e sem sentido, a baixa disponibilidade ou inadequação de equipamentos, o isolamento, além da estagnação e da incerteza na carreira. Entretanto, essas condições não devem ser naturalizadas como parte inevitável do trabalho. É importante reconhecer que o suicídio é um fenômeno complexo e multifatorial, que não deve ser atribuído a uma única causa.
Ademais, muitos também deixam de procurar ajuda por receio de consequências negativas em suas trajetórias profissionais. Embora estratégias individuais sejam importantes, como intervenções psicossociais, manejo do estresse e atividades físicas de lazer, elas não substituem a transformação estrutural das condições geradoras de sofrimento.
No Brasil, um estudo que analisou os registros de suicídio entre trabalhadores de 18 a 65 anos, entre 2008 e 2022, identificou 121.880 casos. Nesse período, houve um aumento de 68,35% nos resultados, passando de 6.550 casos em 2008 para 11.028 em 2022 (Santos; Chaoubah; Oliveira, 2025). Esses dados chamam a atenção para a dimensão do problema e mostram a importância de olhar para a saúde mental dos trabalhadores. Além disso, o estudo destaca as ocupações nas quais os números de suicídio são maiores, com destaque para os trabalhadores rurais e da construção civil do sexo masculino. Isso reforça a importância de compreender a realidade de cada grupo profissional e investigar como as condições e a organização do trabalho podem estar relacionadas ao sofrimento psíquico. Dessa forma, é necessário não apenas oferecer apoio aos trabalhadores, mas também buscar identificar e melhorar as condições de trabalho que podem contribuir para o sofrimento mental.
Nesse sentido, a Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda intervenções organizacionais e políticas voltadas à prevenção dos riscos à saúde mental no trabalho. Entre as estratégias estão abordagens participativas para a organização laboral, limites para jornadas e turnos, estabelecimento de prazos e metas alcançáveis, adequação das demandas, pausas planejadas, comunicação frequente e aberta, melhoria de infraestrutura e equipamentos, estímulo à cooperação e criação de estruturas para prevenir e enfrentar situações de tratamento injusto, comportamentos ofensivos, abuso, assédio e discriminação. Também são recomendados o suporte aos trabalhadores afetados, a gestão humanizada do desempenho, a igualdade de oportunidades, a transparência e a adoção de arranjos de trabalho flexíveis.
Nesse contexto, os gerentes desempenham um papel importante na promoção da saúde mental no trabalho. Para isso, são recomendados treinamentos que os capacitem a reconhecer precocemente sinais de sofrimento, a oferecer apoio e encaminhar os trabalhadores aos serviços adequados. Além disso, adaptações razoáveis no trabalho, programas de retorno ao trabalho e iniciativas de emprego apoiado podem contribuir para a permanência e a reinserção de trabalhadores com demandas de saúde mental.
Assim, as estratégias propostas pela OMS articulam prevenção, proteção, promoção de saúde mental e apoio, buscando fortalecer a conscientização, as habilidades e as oportunidades para reconhecer e agir precocemente diante de situações de sofrimento. Nesse processo, a vigilância e o monitoramento dos fatores psicossociais relacionados ao trabalho são fundamentais para identificar situações de risco. Portanto, a prevenção do suicídio exige uma abordagem ampla, que considere tanto o cuidado com o trabalhador quanto a identificação e a transformação das condições de organização do trabalho que podem contribuir para o sofrimento psíquico.
REFERÊNCIAS
- SANTOS, Douglas Paschoal dos; CHAOUBAH, Alfredo; OLIVEIRA, Helian Nunes de. Epidemiology and economic burden of suicide among Brazilian workers: trends, occupational disparities, and gender differences. Value in Health Regional Issues, v. 49, p. 101143, 2025. DOI: https://doi.org/10.1016/j.vhri.2025.101143. Disponível em: https://www.valuehealthregionalissues.com/article/S2212-1099(25)00068-8/fulltext. Acesso em: 15 set. 2026.
- VIEIRA, B. et al. Risco de suicídio no trabalho: revisão integrativa sobre fatores psicossociais. Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 47, n. 136, p. 253-268, jan./mar. 2023. DOI: https://doi.org/10.1590/0103-11042022313617. Disponível em: https://www.scielo.br/j/sdeb/a/zpDz77Yzg5TmCWFLQXzvxxv/?lang=pt. Acesso em: 7 set. 2026.
- WORLD HEALTH ORGANIZATION. WHO guidelines on mental health at work. Geneva: World Health Organization, 2022. Disponível em: https://iris.who.int/server/api/core/bitstreams/6152a556-6893-4c4e-9ed8-094478bb25eb/content. Acesso em: 7 set. 2026.
- WORLD HEALTH ORGANIZATION; INTERNATIONAL LABOUR ORGANIZATION. Mental health at work: policy brief. Geneva: World Health Organization, 2022. Disponível em: https://iris.who.int/server/api/core/bitstreams/c920460c-9dab-4f9a-ab36-8a83359b35c1/content. Acesso em: 7 set. 2026.