Setembro Amarelo no mundo do trabalho: o que os dados brasileiros revelam sobre saúde mental e prevenção ao suicídio
Todos os anos, cerca de 703 mil pessoas morrem por suicídio no mundo. No Brasil, esse número tem endereço: aparece com mais força entre cobradores de ônibus, operadores de telemarketing, motoristas rodoviários, vigilantes e agentes penitenciários, categorias que dividem o mesmo problema, mas raramente a mesma atenção.
Os dados são do capítulo “Transtornos de Estresse Pós-Traumático (TEPT), Depressão, Comportamento Suicida e seus Impactos no Trabalho”, assinado pelo médico Sérgio Roberto de Lucca no livro que reúne a primeira oficina do Observatório Nacional de Saúde Mental e Trabalho. O panorama que ele traça ajuda a entender por que o Setembro Amarelo não pode ficar restrito a campanhas de conscientização: ele precisa também de vigilância epidemiológica e de política pública.
Um problema que muda de cara conforme a profissão
Segundo o levantamento do Sistema Nacional de Agravos de Notificação (SINAN) citado no capítulo, entre 2006 e 2022 foram notificados quase 17 mil casos de transtornos mentais relacionados ao trabalho no Brasil. A maioria (88%) aparece sob os rótulos “reações a estresse grave e transtornos de adaptação” ou “episódios depressivos e outros transtornos ansiosos”.
Mas os números não se distribuem de forma igual entre profissões. Entre as mulheres, o transtorno de estresse pós-traumático concentra-se em cobradoras de ônibus, operadoras de telemarketing, operárias e profissionais de enfermagem. Os quadros depressivos aparecem com mais frequência entre faxineiras, operárias e professoras. Entre os homens, o TEPT predomina entre motoristas urbanos e rodoviários, seguidos por vigilantes, agentes de segurança e penitenciários, gerentes comerciais e carteiros.
Essa distribuição não é acaso: ela reflete jornadas exaustivas, exposição à violência urbana, metas de desempenho e o tipo de vínculo, muitas vezes precário, que essas categorias sustentam. O capítulo chama atenção ainda para um fator que costuma passar despercebido: trabalhadores que retornam ao emprego com estabilidade após um afastamento psiquiátrico enfrentam estigma e, em alguns casos, práticas de assédio moral organizadas para induzi-los ao pedido de demissão.
O que os números oficiais mais recentes mostram
Os dados do Ministério da Previdência Social reforçam a urgência do tema. Em 2025, o INSS concedeu 546.254 benefícios por incapacidade temporária relacionados a transtornos mentais e comportamentais, um crescimento de 15,66% em relação a 2024 e o quinto ano consecutivo de alta. As mulheres respondem por 63,5% desses afastamentos. Ansiedade e depressão seguem como os diagnósticos mais frequentes, à frente de quadros como transtorno bipolar e dependência química.
Há, no entanto, um dado mais recente que merece acompanhamento: no primeiro semestre de 2026, o número de afastamentos por transtornos mentais recuou para 232.382 casos, ante 267.690 no mesmo período de 2025. É cedo para falar em mudança de tendência (parte da explicação pode estar em fatores operacionais do próprio INSS), mas o movimento coincide com a entrada em vigor, em maio de 2026, da atualização da NR-1, que passou a exigir das empresas a identificação e o gerenciamento formal dos riscos psicossociais no ambiente de trabalho.
Por que isso é pauta do Observatório
Nenhuma campanha de setembro substitui monitoramento contínuo. É exatamente essa a proposta que sustenta o Observatório Nacional de Saúde Mental e Trabalho: produzir dados e conhecimento que subsidiem políticas públicas dentro do SUS, articulando universidades, Centros de Referência em Saúde do Trabalhador (CEREST) e a Rede Nacional de Atenção Integral à Saúde do Trabalhador (RENAST). Prevenção ao suicídio, nesse sentido, começa muito antes de setembro: começa na vigilância de quem cobra passagem de ônibus, atende ligação de telemarketing ou dirige um caminhão à noite.
Se você atravessa um momento difícil, não precisa passar por isso sozinho: o Centro de Valorização da Vida (CVV) atende gratuitamente e 24 horas por dia pelo telefone 188, pelo chat e pelo e-mail em cvv.org.br.
Falar de saúde mental é falar de trabalho, de direitos e de condições de vida.
Referências
LUCCA, Sérgio Roberto de. Transtornos de estresse pós-traumático (TEPT), depressão, comportamento suicida e seus impactos no trabalho. In: MIRANDA, Fernanda Moura D’Almeida; ARAÚJO, Tânia Maria de; OLIVEIRA, Simone Santos (org.). Observatório Saúde Mental e Trabalho: reunindo esforços por direitos e bem-viver. Curitiba: CRV, 2025. p. 89-100. [Fonte da distribuição de casos de TEPT/depressão por ocupação, dos dados do Sinan e do dado global de 703 mil mortes por suicídio/ano, este último originalmente reportado por WHO; OIT (2022) e citado pelo autor na p. 90.]
BRASIL. Ministério da Previdência Social. Previdência Social concede 546.254 benefícios por incapacidade temporária por transtornos mentais e comportamentais. Brasília, 28 jan. 2026. Disponível em: gov.br/previdencia. Acesso em: 31 ago. 2026. [Fonte dos números de 2025: total de benefícios, crescimento de 15,66% e percentual entre mulheres.]
CAJUÍNA. Data Cajuína: afastamentos por saúde mental no Brasil no 1º semestre de 2026. 2026. Disponível em: cajuina.org. Acesso em: 31 ago. 2026. [Fonte da comparação entre os afastamentos do 1º semestre de 2026 e do 1º semestre de 2025, com base em dados públicos do INSS.]
BRASIL. Ministério do Trabalho e Emprego. Portaria MTE nº 1.419, de 27 de agosto de 2024. Altera a Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) para incluir os fatores de risco psicossociais no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais. Brasília, 2024. [Fonte da data de entrada em vigor da fiscalização, maio de 2026.]
